De forma irrefutável, infinita, Orson Welles expõe os fragmentos da vida do homem Charles Foster Kane, e nos convida a combiná-los, reconstruindo-a. No final, compreendemos que os fragmentos não são regidos por uma ordem secreta. (...) Nenhum homem sabe quem ele é, nenhum homem é alguém. Num dos contos de Chesterton – The head of Cesar, eu creio – o herói observa que nada é mais aterrorizante do que um labirinto que não tem centro. Este filme é exatamente esse labirinto.
Jorge Luis Borges
Um estudo que se dispõe a pensar a esquizofrenia na arte, e mais precisamente no processo de construção de um saber sobre a cultura, a priori, deveria formular a pergunta: o que é a esquizofrenia?
Em se tratando deste trabalho, mudam-se os termos de indagação a respeito desta temática. Desenham-se outras perguntas em virtude de outros referenciais filosóficos e do desejo de pensar a esquizofrenia tendo como campo de investigação o pensamento, a arte e a cultura. Aqui, nestas páginas, o termo esquizofrenia não remete apenas a um conceito semântico, mas será utilizado como conceito operacional. Assim, constroem-se outras indagações explicitadas através das formas: que vontade filosófica vem pensando a esquizofrenia; que forças movem uma arte que se diz esquizofrênica e de que modo esta deixa o ambiente da clínica – enquanto patologia mental – e passa a inserir-se em um cenário filosófico e artístico? Que rumos, quais são os interesses e objeto de estudo da prática deste olhar esquizo?
Medo, Clareza, Poder e Desgosto. Estes são os nomes através dos quais Gilles Deleuze e Guattari definem os quatro perigos, objetos de estudo e interesse da esquizoanálise[1]. Da sala de cirurgia às esquinas das grandes cidades, do altar das catedrais à mesa da sala de jantar da família, o medo espreita os homens, pedindo segmentarizações[2]. A segurança, nesse contexto, presume uma organização molar. Quanto mais inseguro for um homem, mais estratificados e retidos serão os seus dias. O medo é uma força de preservação das estruturas, aliado do poder, pedindo estratos bem demarcados no solo social, bem como convidando os hábitos a esboçarem e fixarem as atitudes.
A clareza do dia e da noite apresenta-se como o segundo perigo. Clareza de ver que, nos segmentos, na realidade planificada, onde a casa parece tão em ordem e em alinho, há buracos, circunvoluções, franjas incertas, migrações; há névoas, vazios, uma realidade trêmula, sempre invadida. Clarice Lispector, por exemplo, soube ler e vivenciar isto em sua literatura. Ana, personagem do conto Amor, do seu livro Laços de família[3], descobre as rasuras do seu cotidiano e de si mesma; defronta-se com os espantos guardados nas cortinas costuradas pela força do hábito. Esta força segmentariza, estrutura a vida da mulher, mãe e esposa. É a clareza do microscópio clariciano, uma instância do molecular.
Embora o poder esteja sempre presente, se anuncie e dê as mãos ao medo e à clareza, é inscrito como o terceiro perigo. Trilha, portanto, os segmentos duros e mergulha nos fluxos moleculares. Seria um erro supor o poder como algo que se oferece só em nível molar, das grandes estruturas. Os pontos de poder exercem-se onde os fluxos tornam-se segmentos, dependem da segmentarização; esta precisa dos quanta, assim como o molecular requisita os segmentos.
Não há poder que regule os próprios fluxos, não há homem que module inteiramente seus desejos, sua matéria mutante. Assim, a segmentação defronta-se com a sua impotência e se faz na impotência, numa tentativa de lidar e se afirmar nos fluxos descontínuos. Se a segmentação esgota um fluxo, por outro lado possibilita o criar de outros fluxos, já que também ela opera por movimento dos quanta. Micropolítica, desta forma, não se opõe a macropolítica; usurpa-se o ou, pois no molar há a presença do molecular. O binarismo ou dualismo, aparente, é desfeito.
A segmentarização caracteriza-se como forma de organizar, de produzir identidades, pincel que delineia a estrutura do sujeito ou possibilita a escritura do seu nome. Este nome não só representa como camufla o microcosmo, quanta de si, matéria mutante que tende a escapar aos códigos. A identidade, seja ela a do sujeito, a social, a política ou a de uma nação, é tecida no território, solo segmentado, e, ainda que se perceba como processo, ainda que a diferença esteja sempre presente no jogo da identidade, impossibilitando sua fixidez, ela atravessa o campo das linhas. Ainda que a identidade seja lida como negociação das diferenças, ela corre o risco de cair numa vontade de representação. A identidade, de alguma forma, apazigua a crise.
Por outro lado, a esquizoanálise não abraça o exaltar do plural, evitando o relativismo de valores, desconfiando do discurso que ergue o múltiplo, quando ainda se sente a presença ou nostalgia do um; uma concepção que põe no tablado do jogo da linguagem uma dicotomia entre alteridade e identidade. O pluralismo pode acarretar o indiferenciado, assim como o relativismo absoluto pode constituir a rede diluidora das tensões, dispersando os diálogos entre as diferenças.
O saber, produzido pela esquizoanálise, não funda, antes agita as camadas estabelecidas no social. Fragmenta o que parecia unido e solidificado, faz emergir a heterogeneidade. Há, assim, um entrelaçar com o jogo genealógico. Quanto a este foco temático, Michel Foucault, no ensaio Nietzsche, a genealogia e a história, discorre sobre as noções de proveniência e emergência no estudo do termo origem, seguindoa estrada da filosofia nietzschiana. A genealogia insurge-se contra a quimera da origem metafísica; esta concebida como o ser, o consolidar da perfeição, anterior ao corpo, preexistente à matéria do mundo; origem como o lugar da verdade.
O conhecimento da proveniência diz respeito ao corpo: corpo do discurso, corpo do sujeito, corpo da história, solo e território. A esse respeito, Foucault é muito claro quanto à definição: “Lá onde a alma pretende se unificar, lá onde o eu inventa para si uma identidade ou uma coerência, o genealogista parte em busca do começo – dos começos inumeráveis que deixam esta suspeita de cor, esta marca quase apagada que não saberia enganar um olho, por pouco histórico que seja; a análise da proveniência permite dissociar o Eu e fazer pulular nos lugares e recantos de sua síntese vazia, mil acontecimentos agora perdidos”[4].
No recorte do texto de Foucault sobre a genealogia nietzschiana, já se nota a base para a construção da esquizoanálise. A pesquisa da proveniência traz, explicitamente, a noção de que, ao analisar as estratificações sociais, deparamo-nos com um campo todo rasurado, com um aglomerado de pequenos mundos, zona de indiscernibilidade, um tecido flexível sem o qual o campo molar não se sustentaria; “assim não é mais o professor, mas o inspetor, o melhor aluno, o cabulador de aula, o zelador, etc. Não é mais o general, mas os oficiais subalternos, os suboficiais, o soldado em mim, o encrenqueiro também, cada um com suas tendências, seus pólos, seus conflitos, suas relações de força. E mesmo o ajudante-de-ordens, o zelador só estão sendo invocados para que se compreenda melhor, pois eles têm um lado molar e outro molecular” [5].
Mais uma vez, é interessante trazer a personagem Ana, do conto citado, e perceber como Clarice Lispector define os agenciamentos aos quais o desejo de Ana está ligado. O corpo de Ana está interligado ao corpo da casa, ao corpo da história, aos discursos que fazem dela uma mulher, uma mãe, uma dona de casa, de tantas casas a que ela está relacionada. E o que mantém a segmentarização da família é o zelador do prédio, a empregada do vizinho, os álbuns de retrato, as janelas dos apartamentos, o bairro, a escola dos filhos, o gesto repetido de tirar a poeira dos móveis... O mundo fissurado de Ana; ela, enquanto corpo, proveniência, um amontoado de acontecimentos perdidos, de vazios, de paixões deixadas, de submissões adquiridas, uma história que se crianas ruas, nos bondes, quando a personagem sai, à tardinha, para fazer compras. Ela também é parte desta máquina.
A análise genealógica da proveniência supõe o trabalho com o corpo embaralhado. Lida com as falas entrecortadas, os desvios, os acidentes, pequenos acontecimentos diários, erros nos caminhos, perdas, um humor que se instala, um ruído esquecido, “a exterioridade do acidente ”, os nervos da matéria.
Nesse contexto, do entrecruzar da proveniência e da emergência – dois termos genealógicos –, pode-se falar de certo modo de uma identidade, como jogo para trazer ou possibilitar a demanda de fluxos descodificados. A emergência dá-se quando há uma apropriação de forças, quando um sentido se impõe em determinado momento; a emergência de um devir mulher na história, emergência da criança em um velho, do amor em Ana, no conto clariciano. Embate de forças, fazendo da identidade um jogo para deflagrar o desejo, um mundo bordado de vitórias-régias, de gatos, de flores, de formigas, do deserto de si, como bem descreveu Clarice Lispector, o deserto de Ana. A identidade não ratifica o único, é máscara para poder sentir, liberar o devir do homem e da história, quando as próprias máscaras são remanejadas.
A esquizoanálise distancia-se, portanto, da teleologia, como também da visão evolucionista; dissocia-se da forma linear de conduzir e colocar o discurso e centralizar as palavras, estabelecer o pivô das raízes. A esquizoanálise embaralha o disposto e reunido, exibe as tímidas vitórias, as raivas e ódios guardados, as agitações do cotidiano, as lutas menores. A esquizofrenia vem questionar o conforto dos nomes, que camufla o embate de forças, apropriação da história, um sentido dominante.
Em meio a todas as cartas do jogo do poder, o desgosto surge, então, como o quarto perigo realçado. Quando as linhas de fuga tentam escapar dos territórios demarcados, dos estratos dos solos, elas podem cair, reatar um estado de dissolução ou de guerra em que elas próprias se tornam um alvo. A droga, por exemplo, pode deixar de constituir uma forma outra de caminhar, de sentir, uma linha de fuga, para entrar num projeto de reterritorialização, destroçando as próprias linhas, dilacerando o devir do homem, tornando seu corpo débil, frágil, um caos de desespero. Faz-se da linha de fuga uma meta e da desterritorialização um objetivo teleológico, sendo mais uma vez capturada, sedimentada, disfarçadamente, negando as mutações, a criação de si e do mundo.
Como se coloca nesse terreno – estratificado e sempre desestratificado – o lugar do leitor genealógico e de uma esquizoanálise? Susan Sontag, a propósito deste tema, propõe, em seu livro Contra a interpretação[6], a necessidade de pensar uma erótica do texto ao contrário de uma hermenêutica. No ensaio que dá título a este mesmo livro, ela aborda o problema de uma crítica que prestigia o conteúdo, em detrimento do corpo do texto, do corpo do discurso, ressaltando a importância dos sentidos como forma de apreensão do texto, numa valorização da superfície textual. Para ela, há na Pop Art, por exemplo, uma atitude que nega a vontade de interpretação. O que dizer dos quadros de Andy Warhol, suas latas de sopa pintadas, em série, no espaço da tela?
Segundo Foucault, ao ler a genealogia nietzschiana, a interpretação configura-se como gesto de violência. Não ordena, nem traduz em palavras nítidas o emaranhado do texto, do corpo da história. Pelo contrário, a interpretação, no seu projeto, instaura a crise, dança sobre a mobilidade dos corpos já marcados por acontecimentos. O saber, nesse sentido, não proporciona a quietude, a placidez, não viabiliza a ordem, mas fissura o eu, o corpo do discurso, no projeto em que a verdade impõe-se como queda ou remete à perda do paraíso. O ato de interpretar é ato de dominação de si, do outro, dos territórios. Fazer uma história das interpretações é fazer uma história dos sentidos, das forças, das fendas, das rasuras e dos pergaminhos embaralhados[7].
A esquizoanálise radicaliza a crítica à interpretação. Ainda que esta, a partir de Nietzsche, seja movida pela transmutação e crise dos valores, em muitos casos, ainda é asfixiante e estratificadora, estruturante, tornando o texto mais maleável e dócil. Como ler, então, um livro, um gesto, o silêncio, como fazer vibrar a intensidade das ruas, dos acontecimentos?
Para Jorge Luis Borges, amante dos livros e leitor da prosa do mundo, um livro clássico define-se como shipshape: Tomemos a palavra clássico. O que significa etimologicamente? Clássico tem sua etimologia em classis: “fragata”, “esquadra”. Um livro clássico é um livro ordenado, como tudo tem de estar a bordo; shipshape, como se diz em inglês[8]. Na vertente borgiana, o livro clássico possui uma interioridade orgânica; sua lei é a da reflexão, prevê a idéia de um livro total. Pode-se estabelecer, assim, um encontro entre as reflexões de Borges e Italo Calvino, autor que também se dedicou a pensar o livro. Na sua obra Por que ler os clássicos, Calvino elenca quatorze definições para o conceito de livro clássico. Entre elas, merece destaque, neste contexto, a décima definição: chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs. Com esta definição, tanto Borges como Calvino se aproximam da idéia de livro total sonhada por Mallarmé[9]. Borges, a propósito, volta ao tema e, em uma entrevista, acrescenta: acho que um livro clássico é um livro que lemos de certo modo. Quer dizer, não é um livro escrito de certo modo, mas sim lido de certo modo[10].
No rastro da esquizoanálise, poder-se-ia fazer a crítica à leitura clássica que move os olhares com o desejo de conquistar o todo, de fazer do livro a mímese do universo. A leitura clássica atende a um desejo de representação, uma leitura na qual se planta a raiz pivotante, o pivô que dará sustentação e linearidade para conduzir o fio do alimento, o fio da leitura.
Contrapondo-se ao livro clássico, ou à leitura clássica, estão o livro radícula e o rizomático. No primeiro tipo, não há mais o único, o pivô que prende e dá maior sustentação às raízes, mas ainda persiste o fantasma, ou desejo de unidade, desejo de reencontrá-la, uma vontade de coerência e de estrutura do texto. O segundo modo de livro ou de se debruçar sobre um volume marca o lugar do rizoma. Raízes sem pivô, sem eixo e sem a saudade das estruturas, um labirinto sem centro. A raiz rizomática, pelas suas características, não garante a sustentação, fixa-se nas superfícies ou valoriza as superfícies, desapegando-se da interioridade.
Rachar o mundo para fazer passar a vida, rachar os discursos e os muros tão bem instituídos, neste cenário cria-se a esquizofrenia. A ruptura com o totalitarismo na visão epistemológica, a dispersão do dualismo entre cultura de elite e cultura de massa, o intercâmbio de signos, enfim, a dessacralização da verdade e um questionamento a respeito de uma epistemologia que deseja conquistar o verdadeiro; assim se desenha o cenário propício e construído pelo olhar esquizo. Neste caso, o que está à margem vem à tona na esquizofrenia do cotidiano e de um olhar a se debruçar sobre este.
Desmanchando estruturas sólidas, monolíticas, na escrita e na crítica, o exercício da esquizofrenização da linguagem, o desmantelo da estrutura, vem para afirmar o devir da história e do homem, momento em que o jazz e a internet, o cinema e os jornais noticiam os movimentos das ruas, trocando as posições dos discursos, produzindo a interação das vozes. A esquizofrenia, o riso desconcertante da cultura pós-industrial, presume a conexão, mas não a conjunção entre os fios. Deixemos, assim, Ariadne sem o fio.
[1] Cf. Gilles DELEUZE & Félix GUATTARI. Mil platôs:capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34. p. 106. v. 3.
[2] As noções de segmentação, de segmento e estratificação, de linhas, usadas neste ensaio, são tomadas de empréstimo dos livros de Gilles Deleuze e Guattari. Os autores partem da pedologia para pensar a micro e macropolítica. Cf. Op. Cit. v. 1.
[3] Clarice LISPECTOR. Amor. In: Laços de família. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
[4] Michel FOUCAULT. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. 11. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993, p. 20.
[5] Gilles DELEUZE & Félix GUATTARI. Op. Cit p. 106.
[6] Cf. Susan SONTAG. Contra a interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987, p.23.
[7] Cf. Michel FOUCAULT. Op. Cit. p. 26.
[8] Jorge Luis BORGES. Cabala. In: Sete Noites (Obras completas). São Paulo: Globo, 1999. p. 300. v. 3.
[9] Cf. Ítalo CALVINO. Por que ler os clássicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.13.
[10] Jorge Luis BORGES. Borges em diálogo:conversas de Jorge Luis Borges com Oswaldo Ferrari. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 139.